Minuta Post – Museus no Fediverso: para além das CloneWars

Mês passado fui surpreendido com solicitação proveniente de uma “arroba” bem conhecida de todos nós. A UrsalZona, através de simpática ‘private mention’, sugeriu que eu escrevesse um pequeno artigo para a Newsletter da URSAL falando da importância do Fediverso como infraestrutura para governos. Ela pediu para eu explicar os motivos que nos levam a promover, a partir do Ibram-Museus (Instituto Brasileiro de Museus), a inclusão dos museus brasileiros no Fediverso.
Estou hoje na Coordenação de Arquitetura de Informação Museal do Ibram-Museus, na área de Sistemas de Informação, e trabalho na implementação do Projeto Tainacan, o qual hoje gera serviços diversos como o Cadastro Nacional de Museus, o Visite Museus, e a Brasiliana Museus. O Tainacan é uma aplicação de repositório digital desenvolvida em software livre para publicação online de acervos de instituições culturais. O projeto teve início na Coordenação de Cultura Digital do Ministério da Cultura em 2015, e migrou para o Ibram-Museus com a extinção do MinC em 2016.
O grande diferencial do Tainacan, como aplicação, é que ele foi desenvolvido no formato de plugin para WordPress. Após algumas frustrações em tentativas de desenvolver políticas públicas sustentáveis com software livre no setor cultural entre 2003 e 2015, nós lá no MinC, juntamente com nosso principal parceiro nos laboratórios de Ciência da Informação na universidade pública, o prof. Dalton Martins, fizemos esta ousada opção estratégica de arquitetura de software em favor do ‘framework’ WordPress.
A aliança de uma aplicação de repositório digital para o patrimônio cultural com o software publicador open source de maior sucesso na Internet faz sentido, pois na cultura digital, a inovação e a criatividade de um projeto precisam estar bem representadas no design e na usabilidade do website que resulta. A qualidade das interfaces produzidas são indicadores importantes, e é ótimo perceber como designers e museólogos estão gerando experiências interessantes para audiências online com o Tainacan. Veja, por exemplo, o Museu do Ipiranga, ou um museu pequeno do Ibram, como o Benjamin Constant, ou mesmo um catálogo, como o do "File: Festival Internacional de Linguagem Eletrônica", todos realizados com Tainacan.
Em um outro aspecto essencial da cadeia econômica do desenvolvimento de software, a opção pelo WordPress se mostrou crucial. Os programadores em condições de desenvolver plugins para WordPress são consideravelmente mais acessíveis, e o custo para contratá-los cabe nos valores das bolsas que conseguimos garantir para os projetos em cooperação com a universidade. Mais do que isso! Um grande resultado foi o engajamento de alunos dos laboratórios de Ciência da Informação (Museologia, Arquivologia, Biblioteconomia) nas várias etapas de desenvolvimento do Projeto Tainacan nos últimos 10 anos, seja na Universidade Federal de Goiás – UFG onde o projeto se iniciou, como também na Universidade de Brasília – UnB e na Universidade Federal do Espírito Santo – Ufes cujos laboratórios na sequência foram incluídos no projeto. Muitos destes alunos ocuparam postos de trabalho no âmbito da cooperação, e tornaram-se especialistas em Tainacan, e no desenvolvimento, manutenção e suporte a aplicações baseadas em plugins WordPress.
Acho importante contar esta história até aqui, pois foi exatamente o fato de estarmos trabalhando com um ambiente que facilita o desenvolvimento de aplicações modulares que apoiam processos de publicação web com alto grau de customização da interface — o ecossistema WordPress — que viabilizou esta experiência inovadora dos museus com o Fediverso. No final do ano passado soubemos do lançamento do plugin WordPress para o Fediverso, e começamos a experimentar a ativação da presença no ambiente por intermédio dos posts do blog da Brasiliana Museus. Neste experimento, o aumento no volume de visitas ao site após as primeiras postagens no fediverso — algo como 5x a mais no site como um todo — foi determinante para a decisão de seguir elaborando um plano para a atuação dos museus neste ambiente.
O Fediverso do Ibram nasce no âmbito de uma reflexão sobre a necessidade de uma política pública para a memória digital. Sempre lembramos do Orkut, criado pelo Google em 2002, e que encerrou suas funcionalidades dinâmicas em 2014. O que o Brasil perdeu com o seu desaparecimento? Ao contemplar este fato, dez anos atrás, temos alguma ideia sobre como seria fazer diferente? Estariam nossas instituições de memória preparadas para operar como arquitetura de socialização de produção informacional em rede? Deveriam estar? Me parecem boas perguntas.
O bacana mesmo é que a inovação, quando devidamente apoiada institucionalmente, pode se tornar em processo contagiante. Nesta brincadeira de lego com plugins WordPress envolvendo cientistas da informação e museus, outras possibilidades interessantes para museus emergiram — apontando o surgimento de novas aplicações. Não vou entrar no detalhe aqui, pois já fui além do que imaginei quando comecei a escrever, mas interessados podem se interessar: Decolonização digital de acervos: Inovação amplia o raio de ação de museus.
Antes de concluir, e reiterando a satisfação em poder fazer esta comunicação sobre museus e redes descentralizadas com a principal comunidade brasileira no Fediverso, quero fazer menção ao tema do momento em nosso ambiente, que é o banimento do X no Brasil. Debates aconteceram sobre porque o maior volume de migração aconteceu para o BlueSky, e sobre o fato do Mastodon não ter aparecido como alternativa viável para a grande maioria do universo migratório. Muitos se surpreenderam que o Fediverso nem chegou a merecer qualquer atenção da mídia especializada em tecnologia, e mesmo “arrobas” progressistas e antenadas não pensaram duas vezes em, como Lula, apoiar outro protocolo proprietário mesmo havendo uma alternativa pública viável.
A reflexão que quero compartilhar com a turma da URSAL vai no sentido de considerar que: SIM! O banimento do X no Brasil é um momento de virada — nada será como antes. Entretanto, o principal significado do novo momento não é mais a disputa entre os Clones de aplicações (BlueSky, Threads, Mastodon, Peertube, etc.), estamos indo além das CloneWars. E para onde vamos? Vamos sair das caixas, vamos voltar a inovar! Os acontecimentos nas últimas semanas indicam que o pós-Twitter tende a caracterizar o Fediverso / ActivityPub como o mínimo denominador comum da web social. Um indicador peculiar dessa tendência, que ficou evidente de maneira especial para a turma da URSAL neste momento de XBan, foi a importância que a singela e elegante solução de ponte bridgy adquiriu na composição do novo ecossistema. Desenvolvi um pouco sobre o tema aqui.
Espero ter contribuído com os relatos sobre o que estamos fazendo no Ibram-Museus, e que meus palpites sobre o Fediverso possam gerar boas conversas. Entendo que a forma como os museus estão realizando sua entrada no Fediverso, conectando diferentes aplicações e experimentando novas funcionalidades, aponta um futuro promissor para a inovação, a pesquisa e o desenvolvimento de soluções em software livre voltadas para a web aberta – o Fediverso. A instância social.museus.gov.br foi criada, mas ainda existem questões técnicas a resolver para entrarmos em funcionamento pleno. O grande barato é entender como cada serviço poderá utilizar a rede social de maneira específica, atendendo à perspectiva de resposta ao problema da preservação da memória de conteúdos nato-digitais.
Para terminar, como servidor público preciso dizer que nada disso do que relatei sobre inovação em software livre no Ibram-Museus seria possível se não pelo apoio que o Projeto Tainacan obteve das gestões na casa nestes quase 10 anos de percurso. Vale destacar a coragem dos gestores que blindaram a iniciativa frente aos ataques do governo Bolsonaro às políticas de cultura em geral, e uma menção especial vai para Fernanda Castro, a presidenta do Ibram na atual gestão, que foi sagaz em perceber o potencial diferenciado do Projeto Tainacan. Ao convidar o Prof Dalton Martins para compor a equipe do Ibram, e reformular o desenho da área de TI colocando ênfase na importância da reflexão estratégica em Ciência da Informação (e não somente como operação de licitação de softwares proprietários), reposicionou o Ibram-Museus como difusor da tecnologia livre Tainacan para o campo dos acervos digitais de memória, no Brasil e no mundo.
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